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Caro sr. Roberto Marinho...

por Rubem Alves

Sonhos fazem um povo. O senhor, dono da Globo, tem a potência para fazer o brasileiro sonhar.

Meu pensamento, de tanto ler os poetas e interpretar sonhos, acabou por adquirir prazer especial em associações insólitas. E foi assim que aconteceu: a visão de um anjo me fez pensar no senhor. Explico-me.

Revendo as obras de arte referentes ao nascimento do Menino Deus, meus olhos se detiveram na tela "Anunciação", de Fillipo Lippi: o Anjo, ajoelhado, de perfil, lindo rosto juvenil, asas cor-de-abóbora com manchas negras, mansamente diante da Virgem Bendita, assentada, olhos castamente voltados para o chão, as Sagradas Escrituras na mão esquerda, enquanto um Pássaro, pomba, aproxima-se dela em vôo, asas abertas, e está prestes a pousar no seu colo. O Anjo trouxera o Pássaro. O Pássaro era a semente engravidante. E, como é bem sabido, nos poemas sagrados o Pássaro é o Espírito. Maria foi engravidada pelo Pássaro Divino.

Uma tradição teológica antiquíssima reza que Maria permaneceu ginecologicamente virgem porque foi pelo seu ouvido que o Pássaro entrou. Acredito: muitas gravidezes acontecem através do ouvido. Ora, o que entra no ouvido é a palavra: o Pássaro Divino cantou um canto tão lindo que a Virgem ficou grávida e dela nasceu o Filho de Deus.

Hoje muito se fala sobre anjos e suas funções. Mas nunca ouvi ninguém se referir aos importantíssimos Anjos Engravidantes, os mesmos que fizeram Sara ficar grávida depois de velha. Assim, pela mediação de um Anjo Engravidante, Deus Todo-Poderoso empreendeu trazer o Paraíso de novo à Terra.

Foi então que o meu pensamento deu uma cambalhota. Pensou que, se fosse hoje, as coisas teriam acontecido de forma diversa: a Virgem, em vez de ter o livro sagrado na mão esquerda, estaria ligada a algum canal de televisão. Anjos e televisões se parecem em virtude de sua limitada capacidade virtual: dentro dos dois moram e voam pombas sem número. E seria do vídeo que a Pomba divina estaria saindo e voando, não só para o ouvido como também para os olhos da Virgem. Por meio da televisão, a Imaculada Conceição. Anjos frequentemente aparecem disfarçados de homens comuns.

Veio-me, então, a idéia de que, talvez, o senhor pudesse ser um deles. O Anjo engravidou uma virgem pela palavra. A TV engravida por palavra e imagem. O senhor, dono da Globo, é muito mais potente que qualquer anjo. Anjos engravidam no varejo. O senhor pode engravidar no atacado. Já imaginou? Engravidar uma nação inteira?

Eu tenho 63 anos: 63 paus de fósforo que nunca mais se acenderão. O senhor, pelo que me consta, é mais velho que eu. Meu pai dizia que a vida, até os 60, é de direito. Depois é bonificação. Depois dos 60, todos estamos equidistantes da eternidade.

O senhor já notou que os ipês florescem no inverno? Sabe por quê? No inverno é frio e seco. As árvores ficam com medo de morrer. Por isso produzem, florescem e ejaculam suas sementes ao vento. Antes de morrer, um grande orgasmo de cor e beleza. Querem plantar suas sementes no ventre da mãe-terra. Não seria a hora de fazer como os ipês? No Brasil inteiro não há homem mais potente que o senhor: inseminar palavras e imagens nos ouvidos e nos olhos de todo mundo... Para quê?

O venerável santo Agostinho disse que um povo é um conjunto de pessoas unidas por um mesmo sonho. São os sonhos que fazem um povo. Mas sonhos não moram em argumentos ou razão. Moram nas imagens e na poesia. O senhor, dono da Globo, tem a potência para fazer o povo brasileiro sonhar.

Os textos sagrados fazem a promessa de que, com a vinda do Messias, os velhos desandariam a sonhar. Pensei que o senhor, já velho, poderia ser tocado pela promessa messiânica e ter um sonho parecido com o de Abraão, o de ser pai de uma nação. Mas isso só se o senhor aceitar a vocação de Anjo Engravidante.

Deus me livre, não estou sugerindo que o senhor encha os programas da TV Globo com programas educativos. Programas educativos são inteligentes, belos e inúteis. Somente os que já estão educados se interessam por eles. Quem não é educado, para ser engravidado, tem de ser seduzido. Anjo Engravidante, para engravidar, tem antes de ser Anjo Sedutor. Os sedutores sabem que a sedução se faz com coisas mínimas. "Sermões e lógicas jamais convencem", dizia Whitman.

"Só se convence fazendo sonhar", dizia Bachelard. Sedução por imagens mínimas, palavras poucas, haicais, aperitivos. Por favor: não mate a fome do povo. Faça o povo ficar faminto. Uma televisão "fome-gerante"...

Assim, se o senhor se transformasse em Anjo Engravidante, poderia ir pingando mínimas sementes nos mínimos intervalos dos programas, imagens daquelas coisas boas e belas, gestos, atitudes, pensamentos que seduziriam as pessoas a ir recriando o Paraíso neste nosso país. Criar fome de Paraíso... Não seria uma bela maneira de ir se preparando para dizer adeus?

Eu já estou dizendo adeus faz muito. Mas o senhor pode dizer adeus de um jeito que eu não posso: ir voando, batendo as asas cor-de-abóbora com manchas negras de um Anjo Engravidante...


Caro Sr. Roberto Marinho (II)

Faz algum tempo eu lhe escrevi. O senhor não respondeu. Compreendo seu silêncio! Bachelard declara que, se desejamos convencer, é necessário reabrir as avenidas dos sonhos. Tentei fazê-lo sonhar com uma imagem que mora em meus sonhos: a dos ipês que, pensando que a morte está próxima, desandam a florescer para ejacular sementes pelos campos. Ipês: metáforas para aqueles que já não são jovens: eu e o senhor. Queria que o senhor se sonhasse como ipê florido ejaculando sementes por esse Brasil afora. Seu silêncio diz que o senhor não gostou da imagem. Ninguém gosta de ser lembrado de que a hora crepuscular vem chegando.

O senhor é um homem que ama a beleza. Acho que foi para isso que o senhor criou a fundação que leva seu nome: para restaurar, preservar e celebrar a beleza. O filósofo Ernst Bloch disse que as obras de arte “são uma estrela que conduz o homem através das trevas”. Nelas mora o princípio da esperança. As artes, assim, contêm um elemento de visão utópica. A beleza anuncia uma possibilidade de felicidade que se abre diante dos homens.

A arte é, nas palavras de Bloch, “uma antecipação da morada final do homem” – o Paraíso – e a intenção da beleza é a transformação do mundo. Cada obra de arte é uma oração pela volta do Paraíso.

Faz dias vi na televisão um anúncio que já vira muitas vezes. Campos verdes se perdendo no horizonte, riachos de água cristalina, bosques, cavalos selvagens livres, em galope. A imagem era cheia de beleza. Utópica. Impossível não desejar estar lá. Era o anúncio de Marlboro. Logo depois, por alguns segundo na tela, a advertência: “O Ministério da Saúde adverte: o fumo pode causar câncer”. Dos dois, qual é o verdadeiro? É a advertência do Ministério da Saúde. Trata-se de uma verdade cientificamente comprovada. Já o anúncio seduz pela beleza, mas mente ao sugerir que o cigarro é o caminho para a beleza desejada. Contudo, não conheço nenhuma pessoa que tenha sido convencida pela verdade da ciência. Conheço muitas, entretanto, que foram mortalmente seduzidas pela beleza da imagem. A beleza faz amor com o corpo. O senhor – a televisão – sabe disto: que as pessoas não são movidas pela verdade; elas são movidas pela beleza.

Imagino que o senhor alegremente trocaria toda a arte e toda a beleza que a Fundação Roberto Marinho tem restaurado, preservado e celebrado, pela alegria de uma beleza encarnada num povo e num país. Toda a beleza do mundo anuncia o Paraíso. Conclui-se que o Paraíso é bem superior a toda a beleza da arte – porque o Paraíso é a arte tornada vida.

A tarefa de tornar belo um povo e um país, assim, é superior à tarefa (maravilhosa!) de restauração, preservação e celebração da beleza! E é esse o desafio que lhe lanço: o de ser mais que um simples mecenas, protetor das artes: o senhor pode ser um artista que arranca da pedra bruta um povo e um país!

Dirijo-me ao senhor porque o senhor é, no Brasil, a pessoa que tem mais poder para fazer isso: o senhor é a pessoa que domina a imagem e que sabe usar de sua magia. O anúncio do Marlboro me contou.

A ciência, coitadinha, tão certinha, tão cheia de pesquisas e verdades, sabe como levar o homem à lua, mas não sabe como fazer o homem amar. A advertência do Ministério da Saúde, pelo que sei, até hoje não levou ninguém a amar a própria vida. Não há verdade científica que faça o homem sonhar com o Paraíso.

Mas o senhor é um bruxo: o senhor sabe como fazer os homens sonharem. O senhor é dono de uma fantástica máquina de fazer sonhar. O senhor tem mais poder para mexer com as pessoas que tudo o que, no Brasil, se faz sob o nome de “escola”. O senhor não se assusta com esse poder que lhe foi dado? “A quem muito se lhe deu, muito se lhe pedirá”, diz o Evangelho. Se o senhor quisesse, poderia fazer com que milhares sonhassem com o Paraíso. Se o senhor quisesse, poderia fazer com que milhares se pusessem a trabalhar para a construção do Paraíso. O senhor tem em mãos o poder para plantar as sementes de um novo país. O senhor sabe: a receita está no anúncio do Marlboro. A beleza pode seduzir o povo a amar a natureza, a preservar a saúde, a se alegrar com as artes, a cuidar das crianças, a viver de forma civilizada, a respeitar a vida...

Se o senhor fizer isso, quem sabe, num futuro possível, alguém venha a dizer daquilo que o senhor fez o mesmo que Bachelard disse da obra de Chagall: “O universo tem um destino de felicidade. O homem deve reencontrar o Paraíso”.


Rubem Alves, 63, educador, escritor e psicanalista, doutor em filosofia pela Universidade de Princeton (EUA), é professor emérito da Unicamp. Textos extraídos do livro Entre a Ciência e a Sapiência – O dilema da Educação. Edições Loyola, São Paulo, Brasil, 1999.

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