Memória do Saqueio é um documentário que desvenda a história Argentina e as causas da ruína do país. Mostra como foi possível que um país rico eliminasse sua classe média, elevasse as taxas de desemprego, miséria e indigência a níveis inacreditáveis, recebendo por tudo isso altos elogios do FMI. Mais que isso, Solanas mostra as heróicas manifestações do povo argentino, que em dezembro de 2001 toma as praças e ruas com panelas em punho, chamando a saída de todos os políticos, com um estrondoso “Que se vayan todos!”. Um povo que, diante da brutal repressão, não desistiu e respondeu “El pueblo no se vá”.
Solanas desvenda a desnacionalização do país, através das inúmeras privatizações exigidas pelo FMI e aplicadas com rigor pelo governo neo-peronista de Carlos Menem. Empresas das mais importantes e mundialmente reconhecidas, como a de Petróleo e a de Gás, foram vendidas a preços irrisórios e levaram milhares ao desemprego. Outras privatizações, como a concessão de obras públicas ou a de empresas de água e esgoto, deixaram a população sem serviços básicos. O filme mostra o sorriso com o qual Menem anuncia essa política de privatizações devastadora.
Outros capítulos dessa história aprofundaram a crise social, como a retirada de direitos trabalhistas e previdenciários, a falsa equiparação da moeda local ao dólar e o enorme desvio de verbas públicas para os bolsos dos políticos.
Não é mera coincidência que tudo isso soe familiar aos olhos e ouvidos brasileiros. O filme não cita o Brasil, mas as mesmas reformas, privatizações, planos econômicos, endividamentos, escândalos de corrupção encaminhados pelos políticos argentinos são parte de um mesmo plano neoliberal aplicado em todo o mundo. Os governos brasileiros (Collor, Itamar, Fernando Henrique e Lula) não titubearam em aplicar as mesmas medidas, ainda que elas já estivessem comprovadamente falidas na vizinha Argentina.
O filme decide entrar no interior dos edifícios oficiais para unir corredores respeitosos, pinturas de economistas e políticos e todo o despojo simbólico dos vencedores à crítica histórica e econômica feita pela narração. Andamos nesses corredores e simultaneamente somos informados das ilegalidades das multinacionais ao transformar dívidas de suas filias em dívida externa dos países em que elas estão sediadas. Há nesse recurso algo que só o cinema pode fazer: levar à crítica e fazer o espectador compreender que a miséria das ruas não é uma exceção do neoliberalismo, mas a própria regra, da qual banqueiros e miseráveis são as faces opostas do mundo latino-americano.
Entretanto, o filme não se limita a atestar o saqueio e suas origens. Ele é claro ao demonstrar o fôlego das lutas de resistência. Ao captar o depoimento de uma mulher que bate na panela com que alimentou os filhos, ele realiza uma união entre a memória pessoal da mulher e o sentido de sua luta, um ponto fundamental para determinar a urgência da resistência contra o neoliberalismo. Em tempos de individualidade exacerbada e passividade, depoimentos como esse nos convidam para uma reflexão acerca da responsabilidade dos latino-americanos sobre o seu futuro.
Memórias do Saqueio é arte política, assim como a medicina política dos médicos do bairro pobre que, em meio às leituras científicas de franceses e americanos, decidiram ler um argentino que politizava a medicina. Um mundo despolitizado é verdade propalada pelos saqueadores e, portanto, uma ilusão mortífera. A beleza do filme de Solanas advém da verdade crítica, da esperança na capacidade humana de lutar e de resistir à miséria total. Sempre haverá políticas e belezas diversas. Cabe ao espectador escolher a sua, antes que as aparências criadas pelos saqueadores escolham por você.
A Internacionalização da Amazônia por Cristóvam Buarque
Em um debate nos Estados Unidos, em setembro de 2000, durante o State of the World Forum, no Hotel Hilton em Nova Iorque, o ex-governador do Distrito Federal, CRISTOVÃO BUARQUE, foi questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazônia. O jovem americano introduziu sua pergunta dizendo que esperava a resposta de um humanista e não de um brasileiro. Esta foi a resposta do Sr. Cristovão Buarque:
"De fato, como brasileiro eu simplesmente responderia ser contra a internacionalização da Amazônia, por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso. Mas reconheço que como humanista, aceitaria a internacionalização da Amazônia, transformando-a em uma reserva para todos os seres humanos e não permitindo que fosse queimada pela vontade dos brasileiros. Desde que se considerasse igualmente a necessidade de internacionalizar outros patrimônios nacionais importantes para toda a humanidade.
Se a Amazônia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar o diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço.
Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país. Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as Reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.
Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano.
Não se pode deixar esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural amazônico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país. Não faz muito, um milionário japonês, decidiu enterrar com ele, um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.
Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA.Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhatan deveria pertencer a toda a Humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua historia do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.
Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil.
Tem-se defendido nos EUA a idéia da internacionalização das reservas florestais do mundo em troca do perdão da dívida externa do país onde estão localizadas. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do Mundo tenha possibilidade de COMER e de ir a escola. Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazônia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um patrimônio da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar, que morram quando deveriam viver.
Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa. Só nossa!".