Contato     Busca  
     
Cosmovisão, Paradigma e Crise

                                                                                  por Roberto Crema

Nos horizontes da consciência humana surge uma nova cosmovisão que representa, segundo penso, o mais significativo evento histórico dos últimos séculos, posteriores à Renascença. Cosmovisão, além de significar uma visão ou concepção do mundo, expressa também um atitude frente ao mesmo. Portanto, não é mera abstração, já que a imagem que o homem forma do mundo possui um fator de orientação e uma qualidade modeladora e transformadora da própria conduta humana. Implícito em toda cosmovisão há um caminho de ação e realização. Falando sobre este tema, o médico psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung (1875-1960) afirmava que “o conceito que formamos a respeito do mundo é a imagem daquilo que chamamos mundo. E é por esta imagem que orientamos a adaptação de nós mesmos à realidade.

Toda cosmovisão sustenta-se em algum paradigma básico. Paradigmas, no sentido usual e científico, são realização científicas universalmente reconhecidas que, durante um período de tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes da ciência. A partir dessa concepção, podemos pensar no que seria um sentido sociológico do mesmo termo, com o conceito de paradigma indicando toda a constelação de crenças, valores, procedimentos e técnicas partilhadas no consenso de uma comunidade determinada. Em outras palavras, paradigma refere-se a modelo, padrão e exemplos compartilhados, significando um esquema modelar para a descrição, explicação e compreensão da realidade. É muito mais que uma teoria, pois implica uma estrutura que gera teorias, produzindo pensamentos e explicações e representando um sistema de aprender a aprender que determina todo o processo futuro de aprendizagem.

No universo da prática científica, o desenvolvimento de uma ciência se apresenta como uma sucessão de períodos produtivos ligados à tradição e pontuados por rupturas revolucionárias não-cumulativas. O surgimento de novo paradigma não é produto de um linear processo acumulativo no curso convencional de um estudo científico, e sim de um evento abrupto e não-estruturado, semelhante a uma alteração da forma visual quando se capta uma nova Gestalt. É como uma repentina iluminação, um inesperado satori. É quando caem as vendas, diante da súbita intuição, e uma visão inédita é desvelada. Cria-se uma descontinuidade e inaugura-se um mundo novo. Assim, uma mudança de paradigma é equivalente a uma mudança de mundo: estabelecida a nova Gestalt o cientista é remetido a um mundo distinto daquele regido pelo paradigma ultrapassado.

Desse modo, embora a atividade científica tradicional propicie, com a sua própria dinâmica, o caminho para suas transformações, não é de modo algum fácil e simples a transição de um paradigma para outro. O fenômeno da conversão ao novo paradigma é sempre uma transição entre incomensuráveis, pois encontra-se no centro do processo revolucionário que conduz a uma nova tradição científica A emergência de uma nova estrutura conceitual é geralmente precedida por um período de grande stress e acentuada insegurança profissional. Infelizmente, não é típico do ser humano aceitar, gentil e simplesmente, a falência dos seus pressupostos e o desmantelamento da sua descrição habitual de mundo. Na mesma medida do potencial inovador do insurgente modelo paradigmático é inevitavel a construção de um muro de resistência ao mesmo, por parte, principalmente, dos profissionais e especialistas que devotaram décadas da própria vida ao antigo paradigma.

Um paradigma somente é invalidado quando um outro alternativo e mais satisfatório torna-se disponível, absorvendo e convertendo o anômalo no esperado. Enquanto isso não acontece, os fatos novos, insólitos e inexplicáveis, tendem a ser simples e solenemente desconsiderados (como é o caso dos fenômemos da  Parapsicologia, por exemplo). Nos períodos pré-paradigmáticos, como durante as crises, os cientistas desenvolvem teorias especulativas e desarticuladas que apontam para a direção das novas descobertas.

Embora Thomas Kuhn, no livro “A Estrutura das Revoluções Científicas” tenha, em sua análise, focalizado a ciência, sua abordagem foi amplamente aceita e adotada, seguindo mesmo a sua própria indicação da “necessidade de um estudo similar e comparativo dos paradigmas que regem outras áreas do conhecimento”. Dessa forma, a concepção de paradigma, compreendendo sua natureza instauradora, pode ser estendida para o campo da História e da Cultura, de modo a compreender o processo instaurador, mas também transitório, pelo qual uma cosmovisão imprime fórmulas do real para uso de uma época, um povo, um tempo.

Podemos então afirmar que toda cosmovisão envolve um compromisso paradigmático. E o grandioso paradigma, cujo despontar estamos presenciando nas últimas décadas, surge como resposta a uma crise tão ampla que ameaça provocar um colapso definitivo na civilização dita moderna.

O paradigma mecanicista

A crise planetária que se acelera desde o último século pode ser traduzida como uma crise de fragmentação, atomização e desvinculação. Como nunca antes o homem encontra-se esfacelado no seu conhecimento, dividido no seu pensar e sentir, compartimentalizado no seu viver. Refletindo uma cultura racional e tecnológica, onde a economia, regida por uma ética do lucro, redimensionou as relações humanas, encontramo-nos internamente encarcerados, vivendo num mundo também fracionado em territórios e nacionalidades, em permanente estado de conflito.

E para que essa crise se revele também na sua dimensão instrutiva, como oportunidade para a reavaliação e o avanço da própria humanidade, é necessário que identifiquemos a anomalia, a falha fundamental no paradigma mecanicista, também chamado de paradigma cartesiano-newtoniano, que nos tem condicionado a essa descrição e vivência da realidade.

Nos séculos XVI e XVII, desabou literalmente a cosmovisão escolástica (aristotélica), que mesclava razão e fé, dominante na Idade Média, abalada de forma profunda e irreversível pela Renascença e, mais tarde, pelo movimento cultural-filosófico do Iluminismo. Nascia então uma nova Idade, denominada pelos historiadores de Revolução Científica, que desvinculou o sagrado do profano, destacando a razão como valor fundamental, como o alicerce original do projeto de civilização desenvolvido pelo pensamento ocidental. Tendo como meta a bandeira do progresso, o raciocínio analítico-dedutivo de Descartes e a Física de Newton, também conhecida como Mecânica Clássica, orientaram e modelaram não só a ciência moderna, com sua tendência à quantificação, previsibilidade e controle, mas juntos redesenharam a cultura do Ocidente, promovendo uma infiltração generalizada nas instituições da sociedade moderna, agora encharcadas de eficácia e objetividade, resultante das tão laureadas qualidades da cientificidade. O mundo passou a ser percebido como uma máquina, gigantesca, maravilhosa e eficiente.

Hoje, após ter prevalecido por mais de três séculos, a cosmovisão moderna, sustentada por esse paradigma, encontra-se decadente sob o peso de suas próprias contradições e incapaz de responder aos novos desafios. A ênfase na quantificação, na matematização de todos os processos, conduziu à uma perda da dimensão qualitativa-valorativa do ser. Reduziu-se o mistério ao comensurável. A ciência, ditada pelo mercado e pelo interesse econômico, desvinculo-se da filosofia, da ética, da estética, da mística, da poesia e, de certo modo, da própria vida. Enfim, “o espírito começou a degenerar em intelecto”, na denúncia lúcida de Jung.

A cosmovisão moderna, que nos brindou com imensos benefícios através do incontestável e espetacular progresso tecnológico, deixou também um tenebroso legado, um padrão comportamental determinado por esta concepção moderna de mundo, racionalista, mecanicista e reducionista que pode ser traduzido por nossa visão ultra-especializada da natureza, com sua superênfase na parte, desconectada da Totalidade, do Holos, geradora de alienação, conflitos e incontável sofrimento psíquico.

A idéia do progresso como lei história e de realização necessária que caracteriza a Idade Moderna Ocidental, está vinculada à crença de que nossa civilização se movimenta inexoravelmente numa direção desejável, como uma ordem, uma lei causal que impulsiona a sucessão natural dos acontecimentos. O principal postulador dessa concepção otimista de futuro foi o filósofo francês Augusto Comte (1798-1875), considerado o pai da Sociologia e o fundador do Positivismo, escola filosófica moderna assentada na tradição científica.

A fé progressista gerada no século XIX insensibilizou o europeu e o americano para essa sensação absoluta de risco que é a substância da vida humana. Acreditando que a Humanidade progride inevitavelmente, abandonamos toda a vigilância, despreocupamo-nos, irresponsabilizamo-nos, para deixar que ela nos leve seguramente à perfeição e à delícia, como se estivéssemos embarcados na nave dos feácios de que fala Homero que, sem piloto, navegava direto ao porto.

Entretando a cômoda e ingênua crença progressista evidencio-se falaciosa e insustentável, especialmente quando levamos em conta que, só no século XX, a humanidade presenciou, horrorizada, a duas guerras mundiais. Hoje o principal lastro da economia globalizada é o comércio dos conflitos bélicos patrocinados pela indústria da guerra, que só do orçamento oficial estadunidense garante cerca de 450 bilhões de dólares por ano. Isso se dá certamente por não ter ocorrido uma evolução ética-psíquica-espiritual correspondente no campo das humanidades como se deu no campo técnológico. Se o ser humano evolui, certamente não é devido a uma mecânica causal e sim por esforços conscientes, dentro de uma perspectiva de ação e responsabilidade. O homo sapiens inaugurou uma nova fase, onde a evolução inconsciente deu passagem à evolução consciente. A evolução humana, é uma evolução da consciência, representando uma árdua conquista em nada parecida com o fruto de um confortável decreto metafísico, ou da própria Natureza.

Reconhecendo  que o extermínio do meio ambiente e a decadência da cultura caminham de mãos dadas, o biólogo e médico austríaco Konrad Lorenz, laureado com o Nobel de Medicina em 1973, fez uma contundente denúncia dos perigos da desumanização em seu livro A Demolição do Homem – Crítica à Falsa Religião do Progresso, chamando a atenção para o dramático fato de a evolução tecnológica ter disparado na frente da evolução cultural. “Os hábitos de raciocínio gerados pela tecnologia se transformaram em doutrinas de um sistema tecnocrático, e a tecnocracia tem por consequência uma superorganização das pessoas, cujo efeito de retirar-lhes responsabilidades cresce proporcionalmente ao número de pessoas sujeitas à esse sistema”, afirma o cientista.

Diante das contradições do racionalismo científico e seus efeitos globais na vida humana, principalmente quando são estes os valores de construção dos mercados de trabalho e de consumo mundial, é necessário que sejam despertadas novamente nos jovens as sensações valorativas que lhes permitam perceber o belo e o bom. A atitude antropocêntrica e desvairada de conforto a qualquer preço presente nas premissas da sociedade industrial é o antídoto alienante da visão mecanicista do mundo e o sistema de valores que lhe está associado, gerando instituições e estilos de vida profundamente patológicos.

A apocalíptica face do progresso exaltado por Comte, desidratado da dimensão ética-espiritual, adverte-nos e aponta-nos uma falha central na cosmovisão moderna: a mentalidade otimista-positivista deu lugar a uma outra, niilista e fatalista. Transcender essa polaridade é uma imposição e um grande desafio que quase nos obriga a desvelar e desenvolver, com urgência, um novo e mais amplo paradigma, holístico e pós-moderno, que, como sugeriu o parapsicólogo estadunidense Stanley Krippner, preserve as virtudes da cosmovisão moderna, substituindo suas premissas mecanicistas-reducionistas por outras mais integrativas e orgânicas.



Blog nao mexa Batone no Circo Voador quinta 23/10
veja mais [+]

"Batone & Os Irmãos Saturno" dia 31/07 em Botafogo
veja mais [+]

"Batone & Os Irmãos Saturno" 04/07 na Lapa
veja mais [+]



 
 
Este site foi desenvolvido utilizando tecnologia livre. Clique aqui e saiba mais.