Contato     Busca  
     
Cultura e Trabalho

                                                                                        por Marilena Chauí   

O homem não nasce homem pois precisa da educação para se humanizar. Muitos são os exemplos dados por antropólogos e psicólogos a respeito de crianças que, ao crescerem longe do contato com seus semelhantes, permaneceram como se fossem animais. Na Alemanha, no século passado, foi encontrado um rapaz que crescera absolutamente isolado de todos. Kaspar Hauser, como ficou conhecido, permaneceu escondido por razões não esclarecidas. Como ninguém o ensinara a falar, só se tornou propriamente humano quando sua educação teve início. Nessa ocasião ficou constatado que possuía inteligência excepcional, até então obscurecida pelo abandono a que fora relegado.

O caso da americana Helen Keller é similar, embora as circunstâncias sejam diferentes. Nascida cega, surda e muda, mesmo vivendo entre seus familiares, a menina permaneceu afastada do mundo humano até os sete anos de idade, quando a professora Anne Sullivan lhe tornou possível a compreensão dos símbolos, introduzindo-a no mundo propriamente humano.

Esses casos extremos servem para ilustrar o processo comum pelo qual cada criança recebe a tradição cultural, sempre mediada pelos outros homens, com os quais aprende os símbolos e torna-se capaz de agir e compreender a própria experiência.

A linguagem simbólica e o trabalho constituem, assim, os parâmetros mais importantes para distinguir o homem dos animais. O homem é transformador da natureza e o resultado dessa transformação se chama cultura. Mas para produzir cultura o homem precisa da linguagem simbólica. Os símbolos são invenções humanas por meio das quais o homem pode lidar abstratamente com o mundo que o cerca. Depois de criados, entretanto, eles devem ser aceitos por todo o grupo e se tornam a convenção que permite o diálogo e o entendimento do discurso do outro.

Os símbolos permitem o distanciamento do mundo concreto e a elaboração de idéias abstratas: com o signo “casa”, por exemplo, designamos não só determinada casa, como também qualquer casa. Além disso, com a linguagem simbólica o homem não está apenas presente no mundo, mas é capaz de representá-lo: isto é, o homem torna presente aquilo que está ausente. A linguagem introduz o homem no tempo, porque permite que ele relembre o passado e antecipe o futuro através do pensamento. Ao fazer uso da linguagem simbólica, o homem torna possível o desenvolvimento da técnica e do trabalho humano, enquanto forma sempre renovada de intervenção na natureza.
Recentemente, pesquisas realizadas no campo da etologia (estudo comparado do comportamento dos animais, buscando a regularidade desse comportamento) têm mostrado que alguns tipos de chimpanzés conseguem fazer utensílios, e criam complexas organizações sociais baseadas em formas elaboradas de comunicação. As conclusões dessas pesquisas tendem a atenuar a excessiva rigidez das antigas concepções sobre a distinção entre instinto e inteligência animal e humana.

É evidente que existem grandes diferenças entre os animais conforme seu lugar na escala zoológica: enquanto uma abelha constrói a colméia e prepara o mel segundo padrões rígidos típicos das ações instintivas, um mamífero, que é um animal superior, do ponto de vista da escala zoológica, é capaz de desenvolver outros comportamentos mais flexíveis, e portanto menos previsíveis. Diante de situações problemáticas, animais superiores podem encontrar soluções criativas porque fazem uso da inteligência. Um cachorro faz uso da inteligência quando aprende a obedecer ordens do seu dono ou quando, mobilizado pela fome, desenvolve a capacidade de se adaptar às novidades mediante recursos de improvisação.

O homem, por sua vez, tem instintos como o dos animais, mas possuindo consciência de si próprio, orienta, por exemplo, o controle da sexualidade e da agressividade, submetendo-se de início à normas e sanções da comunidade. O homem foi “expulso do paraíso” quando deixou de se instalar na natureza da mesma forma que os animais e as coisas.

Assim o comportamento humano passa a ser avaliado pela ética, pela estética, pela religião ou pelo mito. Isso significa que os atos referentes à vida humana são tidos como bons ou maus, belos ou não, e essa análise é válida para qualquer ação humana: andar, dormir, alimentar-se não são atividades puramente naturais, pois estão marcadas pelas soluções dadas pela cultura e, posteriormente, pela crítica que o homem faz à cultura.

A condição humana é de ambiguidade porque o homem é o que a tradição cultural quer que ele seja e também a constante tentativa de ruptura dessa tradição. Assim a sociedade humana surge porque o homem é capaz de criar interdições, isto é, proibições, normas que definem o que pode e o que não pode ser feito. No entanto, o homem é também um ser necessitado de transgressões, de desobediências que rejeitam fórmulas antigas e ultrapassadas para instalar novas normas, mais adequadas às necessidades humanas diante dos problemas colocados pela existência.


O Analfabeto Secundário           Enzensberger, H. M. Mediocridade e loucura. São Paulo, Ática, 1995.

Indivíduo alfabetizado, com um grau de informação que pode variar do mais baixo ao mais especializado, capaz de decodificar informação visual e de servir-se de terminais eletrônicos, familiariazado, em suma, com as condições de existência num grande centro urbano contemporâneo, mas desprovido de uma visão cultural mais ampla de sua própria vida e do contexto social. É o produto de uma economia que não tem mais problemas de produção e sim de vendas, que não mais necessita de reservas de mão-de-obra pouco ou nada qualificadas, mas de consumidores qualificados a movimentar-se pela parafernália contemporânea. Caracteriza o analfabeto secundário sua atenção desviada por trivialidades (os pseudo-eventos criados pela televisão, como novelas, competições, gincanas, disputas, reality-shows, etc.), orientando-se por uma sucessão de entretenimentos vazios e recebendo informações políticas sob a forma de comunicação espetacularizada. Próprio dos períodos em que o povo se transforma em público, o analfabeto secundário é contemporâneo de uma época cuja cultura perdeu quase todo traço distintivo e deixou de ser prioridade pública. O analfabeto secundário não se encontra apenas nas camadas mais desfavorecidas da população: longe disso, integra também, em proporção amplamente majoritária, os quadros da elite econômica e política. Sua mídia ideal é a televisão.


O que é ser politizado?                            por Emir Sader (cientista político)

Ser politizado é entender como funcionam as relações de poder em cada sociedade e no mundo em geral. É compreender que, por trás das relações de troca no mercado existem relações de exploração. Que por trás das relações de voto, existem relações de dominação. Que, por trás das relações de informação, há um processo de alienação.
Ser politizado, no mundo de hoje, significa compreendê-lo no marco das relações capitalistas de acumulação e exploração. Representa entender o mundo no marco da hegemonia imperial estadunidense, baseada na força militar e na propaganda do modo de vida estadunidense.
Ser politizado é compreender que tudo o que existe foi produzido historicamente, pelas relações entre os homens e o meio em que vivem. Ou melhor, entre os homens, intermediados pelo meio em que vivem. E que, portanto, tudo o que foi construído pelos homens pode ser desconstruído ou reconstruído. Que tudo é histórico. Que a própria separação entre o sujeito e o objeto – que nos aparece como “dada” – é produzida e reproduzida cotidianamente mediante relações econômico-sociais alienadas.
Ser politizado é saber subordinar as contradições menores às estratégicas, saber que as contradições com o capitalismo são sempre também contra o imperialismo, pela fase histórica atual do capitalismo.

E o que é ser despolitizado?

Já ser despolitizado é achar que as coisas são como são porque são como são, sempre foram assim e assim sempre serão. É considerar que as pessoas sempre buscam tirar vantagens porque não têm grandeza para lutar desinteressadamente por um mundo melhor. Que o que diferencia as pessoas é a ambição de melhorar suas vidas, que a grande maioria não tem jeito mesmo.
Entre o ser politizado e o despolitizado está a alienação, a falta de consciência da relação entre nós e o mundo. Alienar é entregar o que é nosso para o outro – como diz a definição jurídica em relação aos bens. Ser alienado é não perceber a presença do sujeito no objeto e vice-versa, sua vinculação indissolúvel.
A luta pela emancipação humana é uma luta contra toda forma de exploração, de dominação, de discriminação, mas, antes de tudo e sobretudo, uma luta contra a alienação – condição de todas as outras lutas.


O GRANDE PARTIDO DO PAÍS        por José Arbex Jr. (jornalista, autor de Showrnalismo e O Jornalismo Canalha)

A imprensa é o mais sério e consequente partido da burguesia. Se a constatação feita por Antonio Gramsci tem validade universal, no Brasil ela assume contornos bem mais dramáticos e radicais, por uma razão muito simples: nada há, no país, que limite a capacidade de ação dos donos da mídia. Basta o seguinte exemplo para demostrá-lo, por efeito de contraste. Nos Estados Unidos, país sede do capitalismo, é proibida a propriedade cruzada dos meios de comunicação. Isso significa que um mesmo empresário ou grupo não pode exercer, simultaneamente, em dada região, o controle de mais de um veículo. Em outros termos: se um sujeito é dono da emissora de televisão, não pode, ao mesmo tempo, possuir outra de rádio e nem um jornal impresso naquele local. No Brasil, os coronéis da mídia imperam, e não toleram qualquer restrição ao seu poder de mando – exatamente, e não por acaso, como os proprietários do latifúndio.

Nada há de realmente estranho nisso, dada a estrutura de casa-grande e senzala que ainda caracteriza a formação social do país. Desde sempre na história brasileira, o jornalismo impresso destina-se aos pouquíssimos cidadãos capazes de ler um jornal e dele extrair algum sentido (no total, as vendas de jornais diários e revistas semanais mal atingem os 7 milhões de exemplares, para um população de 180 milhões). As emissoras de televisão, principal meio de informação e entretenimento de uma população sem acesso a uma educação decente, manipulam com total desenvoltura o imaginário nacional. A Rede Globo, corporação emblemática da mídia brasileira, o veículo que mais completamente realizou a vocação do jornalismo desejado pelos patrões, foi criada mediante um acordo do empresário Roberto Marinho com a ditadura militar, em 1965, para ser o porta-voz oficioso do regime. As imagens da Globo construíram um Brasil imaginário que, por meio das antenas da Embratel, sedimentou, de norte a sul, uma certa forma de perceber o país. O Brasil passou a se enxergar por meio do espelho forjado por Roberto Marinho.

Garrastazu Médici, a pior face da ditadura, costumava dizer que ficava feliz ao assistir ao Jornal Nacional da Globo, pois, se no mundo inteiro havia “confusão”e “subversão”, no noticiário referente ao Brasil reinava a paz. Em 1970, enquanto os cárceres de Médici estavam abarrotados de presos políticos submetidos a torturas e assassinatos, a Globo transmitia a grande festa do tricampeonato para todo o país, embalada pelo hino “90 milhões em ação”.

Sempre ao lado dos governos, a Globo foi se tornando poderosa. Muito poderosa. Tão poderosa que um dos ministros do governo FHC perguntou, em público, numa das renegociações da dívida da empresa: “Quanto vale uma empresa que diz como o brasileiro pensa?” Ele não estava exagerando. Durante o Fórum Social Mundial, em janeiro de 2006, o assessor especial da Presidência da República, Carlos Tibúrcio, disse que o governo Lula não fazia mudanças que precisava fazer “porque quinze dias de Jornal Nacional inviabilizam o governo nacional e internacionalmente”.

Hoje as Organizações Globo possuem uma dívida que gira em torno dos 6 bilhões de reais e não há nenhum sinal do governo de que pretenda executar a parte que cabe ao bolso dos brasileiros, já que boa parte desse montante foi contraída junto ao setor público. No entanto, isso não significa dizer que a Globo esteja enfraquecida politicamente. Prova disso foi a indicação recente do ministro das Comunicações, Hélio Costa (PMDB-MG), num acordo costurado com José Sarney, o ex-presidente que deu noventa concessões de rádio e televisão (sendo duas para ele mesmo) durante seu mandato para prorrogá-lo por mais um ano. Sarney é também dono da afiliada da Rede Globo no Maranhão. As medidas tomadas por Hélio Costa envolvem o abandono das pesquisas de um modelo essencialmente nacional de televisão digital (modelo que já se apresentava em estágio avançado de desenvolvimento, promovido por universidades brasileiras) e seu posicionamento contrário aos softwares livres, que economizariam 1,1 bilhão de reais por ano aos cofres públicos, segundo o Instituto Nacional de Tecnologia da Informação.

Enfim, o poder que a Globo exerce hoje no Brasil talvez seja melhor compreendido a partir das palavras da psicanalista Maria Rita Kehl: “A Globo conseguiu, melhor do que qualquer política repressiva, de proibição e de censura, alterar a consciência do brasileiro sobre sua própria condição”.


Blog nao mexa Batone no Circo Voador quinta 23/10
veja mais [+]

"Batone & Os Irmãos Saturno" dia 31/07 em Botafogo
veja mais [+]

"Batone & Os Irmãos Saturno" 04/07 na Lapa
veja mais [+]



 
 
Este site foi desenvolvido utilizando tecnologia livre. Clique aqui e saiba mais.